Associação Nacional de Filósofos Clínicos

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Alfin, o fantasma

Alfin, o fantasma

Alfin notou que Samary o chamava eventualmente de Velles quando muitos meses depois de se conhecerem ela o chamou de “… não diga assim, Velles” – em frente a um amigo em comum. O amigo em comum conhecera Velles, ex marido de Samary, e comentou, com ar afetadamente informal com Alfin enquanto Samary atendia a uma breve chamada no celular.

Alfin achou curioso e passou a reparar na frequência com que Samary o chamava de Velles. Estes reparos se somaram a outras observações como “… tu nunca me ouves” – logo ele que se caracterizava entre as pessoas por ser um compadecido ouvinte. E “… tu sempre me colocas para baixo, nunca me apoias”, expressões sinônimas de “…estás sempre me criticando”.

Alfin começou um processo de perguntas a Samary. As respostas de Samary eram somente confirmações para as perguntas.

– Samary, eu sempre te critico?

– Sempre… ontem quando comprei aquele sapatinho baixo me perguntaste porque precisava custar duzentos reais.

– É verdade, eu disse. Mas em tantas vezes eu nunca comentei nada.

– Não comentar não significa não pensar, V… Alfin.

O tempo passou e Alfin percebeu outros eventos que lhe deixaram perplexo, nos primeiros meses; triste, nos segundos meses; nos meses a partir de então ele quis compreender o que se passava.

Por exemplo: ao referir-se à mãe de Alfin, Samary inúmeras vezes a chamou pelo nome da mãe de Velles; ao providenciar um almoço surpresa, Samary chorava porque achava que Velles, aliás, Alfin, traria amigos – mas que ele nunca fez isso, como costumeiramente Velles fazia. Quando jantavam fora com amigos, Samary acusava perturbações como a irritação a partir de qualquer coisa, acusava Alfin de se exibir, de a menosprezar diante dos outros, de preferir os amigos a ela.

Foi então que Alfin teve um sonho. Era uma noite quente, verão, e no sonho os amigos, Samary, outras pessoas estavam em uma aldeia, beira mar, saboreando sucos, no início da noite. Alfin falava para as pessoas, mas elas não respondiam para ele; ele perguntava ou pedia, ninguém parecia sequer lhe ver. Colocou-se diante de uma senhora e ela, serenamente, passou pelo meio dele. Alfin tomou um susto. Sentou-se. Pegou um copo de água, mas os dedos atravessaram feitos nuvens o copo, a água, a mesa.

Samary, olhando para a cadeira onde ele estava sentado, mas sem o ver, falou em tom baixo, mais para ela mesma ouvir:
– Por que Alfin não veio?

Alfin veio, mas era um fantasma. Somente poderia ser visto e tido como fantasma, não como pessoa. Ao acordar, ele estava calmo, suave, ainda com vontade de seguir dormindo. Na cama comentou com Samary o sonho.

Ela disse que aquilo era uma bobagem, que fantasmas não existem, que fantasmas não escolhiam o canto da cama no qual gostam de dormir, como ele sempre fazia. E, aliás, como ele nunca, nunca, fez…

artigo publicado na edição 49 da revista Filosofia, da Editora Escala.

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