Associação Nacional de Filósofos Clínicos

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A morte do humanismo, graças a Deus!

A morte do humanismo, graças a Deus!

Um questionamento: por que, hoje em dia, aquele que sabe não é mais sábio? Curiosamente percebe-se que a ciência moderna quase nunca significa aquele clássico conceito de sabedoria em que o saber busca um sentido de plenitude de consciência, uma visão da totalidade do mundo. Fato é que o saber deixou de significar sabedoria quando o conhecimento adquiriu outro fim que não sua própria totalidade. Essa mudança surgiu quando o ser humano – a partir de Francis Bacon e assegurado pelo paradigma científico de Descartes e Newton – fragmentou a realidade em duas partes separadas: o homem e a realidade natural; o observador e a objetividade do mundo externo a ser conhecido. Depois da afirmação pragmática de Bacon, segundo a qual “conhecer é poder”, aquele que sabe não é mais sábio. O verbo latino sapere significa literalmente “saborear”, ou seja, experimentar pessoalmente, vivenciar a realidade como partícipe dela. Todavia, hoje conhecer algo é dominá-lo (“eu domino psicologia, geografia etc”), o que está longe de significar um exemplo vivo do que sabe. É por isso que, como se diz hoje, na prática a teoria é outra.

Em fins do século XVI e durante o XVII, da Europa para o mundo, nasceu simultaneamente a falência e a glória de nossa civilização: a idéia da superioridade da espécie humana à natureza, e que esta existiria para o único propósito utilitarista de servir à sua necessidade. O pressuposto básico do humanismo de então – isto é, sob a égide da nascente burguesia, da iniciativa privada – foi a crença no poder de controle absoluto de toda a realidade, através da razão e da tecnologia; a fé na nossa capacidade para controlar absolutamente o nosso próprio destino, sob a crença de que a natureza sempre nos provirá de recursos, se não infinitos ao certo substituíveis. O gérmen perigoso de toda essa estupidez humanista, que hoje entenderíamos por antiecológica, foi a idéia de que o mundo natural existiria apenas como um meio para o fim humano. Assim, na herança dessa onipotência da arrogância do humanismo, ainda hoje muitos têm dificuldade em aceitar que alguma coisa chegou a ponto de estar definitivamente fora do nosso controle, de que profundas depredações sócio-ambientais impliquem na importante restrição ecológica da irreversibilidade de sistemas vivos. Na afirmação narcisista dessa lógica da força, sobre o que tenho poder tenho direito. E temos o poder da morte. Para lembrar Erich Fromm, em O Coração do Homem, a força é sobretudo “a capacidade para transformar um homem num cadáver”. Destaco também aqui o livro 1984, de George Orwell, que dá provas desse absolutismo presunçoso.

Palavras como fraqueza, ignorância ou incerteza desagradam os humanistas na modernidade, justificando o “erro humano” pondo a culpa em algum mecanismo defeituoso das máquinas, por nós mesmos criadas. A própria morte é evitada (pela ciência ou pelas literaturas fictícias, que refletiriam um anseio popular) como se não fosse natural ou como se fosse mais um obstáculo à tecnologia a ser superado com o tempo. Só muito recentemente vimos nascer a tanatologia, com Kübber-Ross, Sobre a morte e o morrer, abordando brilhantemente o morrer como uma qualidade terapêutica de vida, da medicina. A imortalidade espiritual implicaria então num anti-humanismo ou no máximo o lado bom de um humanismo arrependido. Vale dizer que tudo isso estaria corroborado pelo pressuposto da infalibilidade da razão e a soberania da ciência sobre todos os valores pessoais que não os da verdade objetiva do positivismo. Dessa maneira, o homem teria o direito de realizar qualquer ação desde que tivesse poder tecnológico para tanto. Porque a ciência não é neutra nem isenta dos financiamentos multinacionais das indústrias, se uma tecnologia puder ser usada para fins maléficos, assim acontecerá.

Outra interessante e cuidadosa observação é o historicamente novo e terrível fenômeno: a produção de energia excedente. Risco que ameaça a existência planetária devido ao poder e tecnologias, principalmente nucleares, que foram acumuladas com o absoluto fim de dominação da natureza pelo homem. Isso ao lado dos primeiros e rápidos indícios de que os recursos naturais começam a acabar, não porque fontes d’água ou matas virgens pontualmente estejam extinguindo-se, mas sim porque a falta de apenas um elo na cadeia ecossistêmica torna-a inteiramente nova, reconfigurada pelo caos, com lamentáveis surpresas, para novos ciclos planetários e outros espécimes adaptados. A esse respeito, ninguém melhor citar que James E. Lovelock, autor de “Gaia, um novo olhar sobre a vida na Terra”, publicado em 1979:

“…qualquer espécie que afete o ambiente de maneira adversa está condenada – mas a vida continua (…). Tudo depende de você ou de mim. Se virmos o mundo como um organismo vivo de que somos partes – não proprietários, nem inquilinos, nem mesmo passageiros -, poderíamos ter um longo prazo à nossa frente e a nova espécie poderia sobreviver para aproveitar esse “tempo concedido”.
Com a hipótese de Gaia garante-se uma plena integração ecológica, em que o conservacionismo não prioriza nem o homem nem a natureza no ecossistema vivo. Lovelock oferece, positivamente, outro argumento que o de “valor de existência” não humanístico. Evita com isso a tendência ao naturalismo romântico; ou seja: a defesa da natureza contra o homem. Visto que, postular o primado da natureza sobre o homem, como adoram muitos fazer, é simplesmente inverter as extremidades; valorizar o outro protagonista oculto. É a disputa ilusória do pernicioso dualismo separatista que tanto ainda se persiste no ranço de Descartes. A saída do dilema humanismo versus ambientalismo é, portanto, o mito de Gaia; é centrar a atenção na interdependência entre o homem e a natureza – imbricados numa única complexidade sistêmica, na teia estimulante da vida.

Da arrogância humanista à humildade ecológica… Cedo ou tarde, eis a história de um futuro que não podemos esperar mais e ante o qual possa ainda o homem acordar a missão renascentista de seu velho sonho: ser um deus natural. Missão por Deus a ele designado quando nele esse sonho nasceu.

Will Goya
Filósofo clínico
http://willgoya.com

LOVELOCK, James (1988). Gaia: Um olhar sobre a vida na Terra, de James (apud FERREIRA, L. C. A. Questão Ambiental. Sustentabilidade e políticas públicas no Brasil. São Paulo: Bom Tempo Editorial, 1998, p.144-145.

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