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Walter Benjamin e o colecionador de insignificâncias

A alcunha lhe cabia tanto pelo hábito de recolher aquilo que o mundo julgava irrelevante (borboletas, pedaços de papel, bonecos velhos, relógios antigos) quanto pela maneira como ele próprio se percebia: um insignificante, um estrangeiro diante de um mundo em guerra.

Para o pensador alemão, o colecionador é o mediador da circulação dos objetos, aquele que movimenta seus ciclos de vida e morte, de exibição e apagamento. Não se limita a recolher coisas: deposita nelas suas memórias, afetos e vestígios, fazendo de cada objeto um corpo externo onde parte de sua própria existência se prolonga. Colecionar, assim, seria menos um gesto de posse do que uma tentativa de inscrever-se no mundo através daquilo que se preserva. Os objetos contam histórias e criam narrativas.

Trago para esse texto o conceito benjaminiano de história. Para Benjamin, as memórias não se organizam linearmente; elas surgem como reminiscências, relâmpagos que irrompem e se conectam, encontrando repouso e inscrição no único instante que existe: o presente. Não há uma história continua, planificada, objetiva, manipulável ao bel-prazer da razão. Todas as memorias não passam de representações e percepções que acontecem agora, neste instante e em nenhum outro.

Ao citar episódio do passado, retira-os de seus contextos originais e, de certo modo, os destrói. Mas talvez essa destruição seja também uma aproximação da origem, entendida não como começo cronológico, mas como redenção. Para o filosofo, felicidade seria precisamente isso: uma vida redimida, uma vida capaz de absorver o passado no presente.

Para Walter Benjamin, as memórias que já não são podem ser salvas; já se cristalizaram como memória e já se inscreveram em nossos corpos. Tornaram-se imagem, vestígio, ruína. O que pode ainda ser salvo são as memórias que ainda não são, aquelas que permanecem em suspensão, aguardando inscrição. Mas essa salvação exige uma espécie de redenção diante do passado já constituído. É preciso reconciliar-se com as ruínas, atravessar os escombros daquilo que fomos, para que presente não continue apenas repetindo a catástrofe. Só então a memória deixa de ser prisão e se torna possibilidade.

“a existência caminha em direção à origem. E no último dia, origem e destruição finalmente se encontram; o tempo se encerra, os espaços desaparecem. Esse intervalo é tudo o que nos resta”

O passado nada mais é do que a atmosfera do narrador. A essência da vida é o presente, e apenas de maneira mítica podemos habitar passado e futuro. Talvez passado e futuro sejam apenas modos populares de nomear a vida.

A história de uma pessoa, além de poder se inscrever nos objetos, está inscrita nela mesma: em cada ruga, em cada vinco, em cada lágrima. Toda expressão do corpo é expressão de uma história. E tudo aquilo que atravessa o nosso tempo é também expressão trágica da própria história humana. “

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