Essa história traz em si os dois germes encobertos pela casca dura e encrespada da existência: tragédia e poesia. Uma mãe e uma criança; entre elas restou um signo de luz, uma girafinha de plástico.
A família já era grande: pai, mãe, dois meninos e duas meninas. Mas chegaria mais um filho. Não lembro, pelo relato de minha paciente, uma das meninas da família, se a quinta criança seria menino ou uma menina. A criança nasceu e foi se acomodando ao tempo e ao espaço, no seio de uma família que vivia bem, em boas condições materiais sob os afetos expressos do pai e os afetos escondidos da mãe.
O pai era o tempo parado, inspiração dos dias; era o ar. A mãe era o tempo corrido, pura expiração; era a terra. Nesse equilíbrio, harmonizavam-se na rotina dos dias úteis, esperando o fim de semana como se o fim fosse capaz de iluminar e acalentar a semana de escola e trabalho, de vozerio, cadeiras arrastando, aromas de pão e café.
A praia, no litoral de São Paulo, era o destino. Sempre que o tempo fazia sua parte e o sol dava o ar da graça, a vida se tornava mais leve e feliz. E lá iam os sete. Eram sete.
No final do domingo, com cansaço e sorrisos de meia satisfação no rosto – satisfeitos pelo bom uso do tempo, insatisfeitos com a segunda-feira q os aguardava- – voltaram a para São Paulo. Mas o sétimo da trupe, o quinto filho, ainda com dois anos incompletos, apresentou uma febre insistente: subia, baixava, voltava a subir. Tentaram contato com o pediatra, mas não conseguiram. Amanhã seria segunda-feira, dia útil por excelência. Utilidade é isso: resolver os espinhos da existência. Levariam a criança ao médico.
Lá pelas tantas da madrugada, com a febre mais calma, a mãe gentilmente o acomodou no bercinho que já havia aconchegado quatro crianças. Naquele instante, não imaginava estar se despedindo do filho. Mas é assim: todo instante traz em si a potência do não, do não mais, do nunca mais.
Ela acomodou a girafinha sob os bracinhos delicados da criança, adormecida exausta pelos processos metabólicos da febre e pela luta desleal e covarde que se travava no interior de seu frágil organismo diante de uma bactéria que rapidamente venceria a batalha. A girafinha permaneceu com os olhos abertos e assistiu ao menino e à morte do menino, que amanheceu, ou melhor, não amanheceu.
Essa história aconteceu há muitos anos. A mãe, com ar de dignidade ofendida, sempre resolutiva e pragmática, deixou o quarto com o bebe enrolado em um lençol branco; o pai vinha logo atrás, aos prantos, afetado pelo trágico da existência. Saíram de casa, deixando para trás a escada de crianças, umas após as outras, do mais velho ao mais novo, enquanto seguiam em direção ao “hospital”, para tratar a doença do bebê.
Minha paciente, autora verbal do presente relato, tinha cinco anos, mas guarda de modo irreversível a cena do irmão envolto em um lençol branco sendo levado de casa para todo o sempre.
Segundo ela, o pai jamais superou o episodio e nunca mais voltou a ser o homem de antes. Carregou consigo, até o dia da própria morte, o cadáver simbólico do filho e uma culpa plasmada a partir da inação daquela noite quando talvez pudesse ter agido e mudado o destino da vida da criança. São tantos os “se” que nos penetram. E, em situações-limite como essa, o “se” pode ser devastador e levar consigo outra vida.
Essa é a vileza da existência: um tempo que não volta, irremediável, inescapável. O que acontece não se “desacontece” jamais. Por mais q tentemos fugir, permanecerá sempre presente, de um modo ou de outro.
O pai morreu cedo.
A mãe , mulher enérgica, pragmática, resolutiva, professora respeitadíssima na Universidade de São Paulo, não se permitiu entregar os pontos. E seguiu. Faleceu há poucos anos, quase centenária.
Alguns anos atrás, mais de cinquenta anos após a morte da criança, minha paciente encontrou por acaso, em uma caixa no guarda-roupa da mãe, em meio a roupas e mais roupas, como que ocultando certa forma de vergonha ou fraqueza, a girafinha de plástico que sobrevivera à criança que morrera abraçada a ela. A girafa tornou-se depositária do afeto difícil daquela mulher que, na beleza silenciosa de um gesto, preservou a pequena peça de plástico à qual recorria sempre que a saudade insuportável da criança retornava.
E aquele objeto, destinado talvez à doação ou a algum lixão, tornou-se vivo para essa mulher cuja casca grossa era apenas um modo de sobreviver, mas que continha dentro de si um amor poderoso e q precisava justamente dessa casca para continuar existindo.
Não apenas nós, seres humanos, somos carregados de história e somos a partir de nossas histórias. Também os objetos são históricos e podem trazer em si, como que imantados em sua forma, um tempo que passa sem passar e que se atualiza sem cessar, rearticulando-se com o instante presente. Como uma simples girafa de plástico, comprada em um dia qualquer, muitas décadas atrás….”