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Singularidade, Corpo, Cidade e Modernidade. Merleau-Ponty e o flâneur de Baudelaire e Benjamin

Na Filosofia Clínica, o trabalho com o partilhante começa pela historicidade: uma vida em movimento, situada num tempo, num lugar, entre relações concretas. Essa atenção à história vivida encontra um diálogo fecundo com Merleau-Ponty, em O Visível e o Invisível, e com a figura do flâneur² em Baudelaire e Benjamin. Em vez de tomarmos o sujeito como consciência abstrata que “olha” o mundo de fora, a fenomenologia de Merleau-Ponty insiste que somos corpo, “carne” do próprio mundo. O visível – aquilo que aparece, as cenas, os fatos – está sempre prenhe de um invisível: memórias, vozes, afetos, valores, modos de significar. Não há percepção neutra: ver é sempre já interpretar, filtrar, selecionar; é ser, ao mesmo tempo, aquele que vê e aquele que é visto. Essa reversibilidade – tocar e ser tocado, ver e ser visto – desmancha a separação clássica entre sujeito e objeto.

O flâneur de Baudelaire e Benjamin encarna essa mesma ambiguidade, agora no cenário da modernidade urbana. É o caminhante que perambula pela cidade, sobretudo pela Paris do século XIX, deixando-se atravessar por vitrines, passagens, anúncios, tipos humanos. Está mergulhado na multidão, mas não se confunde inteiramente com ela; observa e, ao mesmo tempo, é afetado pelo fluxo de mercadorias, ritmos, choques, pela coreografia anônima das ruas. Benjamin mostra como, sob a aparência luminosa das mercadorias e da arquitetura, esconde-se um invisível histórico: exploração, desigualdade, fantasmagorias do capital. A cidade é texto, mas também sintoma. O flâneur lê fachadas e anúncios como quem lê sintomas de uma época – e, nesse gesto, faz crítica social.

Se aproximarmos esse quadro da Filosofia Clínica, percebemos um campo comum: a recusa de um sujeito abstrato e a atenção ao modo singular como alguém aparece no mundo. O partilhante que chega à clínica traz uma narrativa – mais ou menos contínua, fragmentada, cronológica, em blocos, colada à atualização semanal ou mergulhada no passado. O filósofo clínico escuta essa narrativa como um fenômeno: o visível é o que é dito, os fatos relatados, as cenas; o invisível são as vozes que ecoam, os valores pressupostos, as escolhas lexicais, os silêncios, as hesitações. A historicidade, tal como trabalhada em clínica, não é uma “história fechada” que se conta de trás para frente; é ser-sendo, história em curso, continuamente reconfigurada a partir do presente. Merleau-Ponty ajuda a sustentar isso: toda memória é uma composição do presente para o passado, uma remontagem que já traz as marcas das experiências atuais.

Nessa perspectiva, historicidade se aproxima do entrelaçamento que, no texto fenomenológico, Merleau-Ponty chama de “carne”: não há sujeito de um lado e mundo do outro, mas uma trama em que corpo, cidade, linguagem e tempo se implicam mutuamente. Quando Benjamin lê o flâneur, está justamente atento a esse entrelaçamento: a cidade não é cenário neutro, é parte constitutiva da experiência. O mesmo vale para a clínica: a vida que o partilhante narra não é apenas “o que lhe aconteceu”, mas também “o mundo que continua acontecendo” em volta dele – e que o constitui.

Nesse ponto, a aproximação com a figura do flâneur se torna especialmente interessante para a Filosofia Clínica. O filósofo clínico, quando se desloca pela cidade, pode exercitar uma espécie de flânerie clínica: caminhar, observar, deixar-se afetar, perceber como as formas de convivência, os conflitos, os medos e as estratégias de sobrevivência de grupos diversos atravessam aquilo que depois poderá ou não aparecer de forma direta ou indireta na clínica, como angústia, medo,

 

culpa, sensação de não-pertencimento³. Pensemos, por exemplo, na experiência de pessoas trans e drag queens que relatam o medo cotidiano de se deslocar pela cidade, de pegar um ônibus, entrar num avião, ocupar determinado bairro. O visível: notícias de agressões, vigilância nos aeroportos, conflitos em voos, olhares hostis. O invisível: a tensão permanente de “pedir licença para existir”, o cálculo silencioso de quais espaços são minimamente seguros, o conflito entre pertença a um grupo e o medo de “trair” esse grupo em uma decisão cotidiana.

Benjamin diria que a metrópole produz fantasmagorias – imagens sedutoras que encobrem a violência estrutural. O filósofo clínico, atento a isso, percebe que, quando um partilhante fala de “medo de sair de casa”, não está apenas descrevendo um estado interno; está respondendo a um mundo que, historicamente, tornou perigoso o simples ato de caminhar sendo quem se é. O flâneur filosófico-clínico, que atravessa a mesma cidade, não precisa transformar-se em sociólogo ou ativista dentro da clínica, mas não pode ignorar que esse medo não é um “traço de personalidade”: é um fenômeno histórico concretamente situado.

Ao mesmo tempo, a experiência do flâneur lembra ao clínico que movimento não é sinônimo de deslocamento geográfico. Há partilhantes cuja vida externa parece “não dar um livro”: poucos eventos, pouca circulação, repetição de rotinas. Mas internamente, como nos romances aparentemente “sem trama” de Clarice Lispector, há uma ebulição de pensamentos, significações e microdecisões a partir de situações mínimas – a barata no armário, o quarto arrumado de um certo modo, a máquina de costura da mãe. Uma pessoa pode morar décadas no mesmo bairro, no mesmo quarto, com os mesmos objetos, e ainda assim viver uma historicidade complexa, com movimentos sutis, reconfigurações de sentido, pequenas decisões éticas cotidianas.

Outra pode cruzar países, aeroportos, empregos, relacionamentos, multiplicando deslocamentos, sem que isso produza mudança de patamar na sua estrutura de pensamento. O filósofo clínico, instruído pela fenomenologia e pelas figuras do flâneur, aprende a não confundir movimento com agitação e permanência com paralisia. O que se transforma – e em que nível – só pode ser visto na singularidade: há partilhantes para os quais uma ruptura amorosa marca um antes e depois nítido, verdadeiro patamar; outros atravessam rupturas idênticas sem que isso produza qualquer inflexão perceptível. A palavra “mudança”, ou “progresso”, pode ser vivida por alguns como horizonte desejável, e por outros como ameaça à própria identidade.

É aqui que Merleau-Ponty ajuda novamente: a ideia de reversibilidade implica que o clínico também é tocado pelo encontro. A interseção não é lugar assimétrico de aplicação de técnica; é um campo em que o filósofo clínico, tal como o flâneur na multidão, é atravessado por aquilo que vê e ouve. Isso tem implicações autogênicas: caminhar pela cidade, atender partilhantes de grupos historicamente vulnerabilizados, conviver com relatos de medo, racismo, transfobia, violência doméstica, precariedade econômica – tudo isso repercute nos próprios tópicos de busca, na axiologia, no papel existencial do clínico. A clínica, nesse sentido, não é um lugar suspenso, “fora do mundo”; é um núcleo de alta densidade onde a historicidade do clínico e a do partilhante se tocam.

Do lado da experiência estética, Baudelaire e Benjamin mostram que o flâneur possui uma espécie de sensibilidade ampliada: ele capta detalhes, cores, gestos, fragmentos de conversa, luzes em vitrines, anúncios – e nisso encontra pistas para pensar a modernidade. O filósofo clínico pode se beneficiar de um exercício semelhante, não como ornamento intelectual, mas como recurso de escuta. Captar o vocabulário preciso que o partilhante usa (“grupo das diferenças”, “vida que não dá um livro”, “não quero ofender as pessoas”) já é entrar no nível dos

 

significados, dos valores e dos jogos de linguagem que organizam aquela existência. Essa atenção estética ao modo de narrar – ao ritmo, às imagens, ao modo como alguém “monta” sua própria história – conecta diretamente Merleau-Ponty, o flâneur e a prática clínica: trata-se sempre de acompanhar como o mundo aparece para alguém.

Há também uma dimensão de crítica social que não pode ser descolada da clínica. Benjamin insistia em que a multidão urbana e o espetáculo das mercadorias produziam formas específicas de alienação, anestesia e choque. Hoje, a cidade inclui não apenas ruas e passagens, mas também redes sociais, aplicativos, plataformas de trabalho, condomínios fechados, favelas marcadas por controle policial e ausência de serviços, shoppings climatizados. O filósofo clínico que circula por esses espaços – físicos e digitais – percebe empiricamente o que, mais tarde, poderá aparecer no consultório como rótulos de “ansiedade”, “síndrome do impostor”, “burnout”, “sensação de não caber em lugar nenhum”.

A tentação, então, é recorrer a categorias prêtes-à-porter – diagnósticos psiquiátricos, rótulos sociológicos, jargões militantes – que pretendem explicar de uma vez o que alguém vive. A Filosofia Clínica, precisamente por se situar na interseção, precisa manejar essa tensão: acolher o que marxismo, feminismos, estudos de gênero, sociologia urbana, fenomenologia e teoria crítica oferecem, sem permitir que essas grelhas ofusquem e/ou apaguem a singularidade. A figura do flâneur, para Benjamin, é também um antídoto contra a abstração: em vez de começar da teoria, começa-se da caminhada, da cena concreta, do rosto na multidão. Na clínica, isso se traduz em começar da narração do partilhante, da agenda, dos dados divisórios, do modo como alguém fala de escola, família, trabalho, bairro, corpo, fé. A teoria, se entra, entra a posteriori, na medida em que ajuda a não trivializar o que foi ouvido.

Em termos práticos, essa aproximação entre Merleau-Ponty, o flâneur e a Filosofia Clínica sugere alguns desdobramentos para a clínica contemporânea:

  1. Afinar a categoria de historicidade, entendendo-a como história em movimento, onde “história”, “cidade” e “idade” se A vida de alguém não é apenas cronologia; é um modo de estar num certo lugar, numa certa época, sob certas linguagens e expectativas.
  2. Cuidar da espacialidade como dimensão clínica. “Lugar” não é só coordenada geográfica, mas também configuração existencial: o quarto de quem “não sai de casa”, a sala de aula onde alguém aprendeu a se calar, a igreja que foi refúgio e, depois, expulsão, o ônibus que hoje é ameaça. Cada um desses lugares poderá participar da estrutura de
  3. Exercitar uma flânerie clínica: manter uma relação viva com a cidade, com seus conflitos e diferenças, para que a escuta não se reduza a um interior psicológico desencarnado. Isso pode inspirar práticas menos enclausuradas – grupos em espaços comunitários, projetos articulados com cinema, literatura, caminhadas, desde que o rigor ético da interseção seja preservado.
  4. Elaborar, com cada partilhante, o sentido de “movimento” e “mudança” que é suportável para ele. Para alguns, nomear uma mudança é libertador; para outros, é ameaçador, como se implicasse perda de Não há regra: o termo movimento, como qualquer outro, precisa ser investigado existencialmente.

 

  1. Cuidar da autogenia do clínico: reconhecer que a própria relação com a cidade, com os temas de época (violência, polarização, redes, crises econômicas) e com as histórias que chegam à clínica mexe com seus critérios, afetos e decisões. Ignorar isso é empobrecer a própria prática.

Assim, integrar Merleau-Ponty e a figura do flâneur à Filosofia Clínica não significa “teorizar sobre” o partilhante, mas refinar o modo de estar com ele. A fenomenologia lembra que todo relato é encontro entre visível e invisível; Benjamin e Baudelaire lembram que esse encontro acontece numa cidade concreta, num capitalismo concreto, numa época concreta; a Filosofia Clínica sustenta que tudo isso só tem sentido se voltar, sem atalhos, à singularidade de quem se senta à frente do clínico. É nesse cruzamento que a reflexão filosófico-clínica pode acompanhar, com mais precisão e humanidade, uma vida tentando se narrar em meio às vitrines, algoritmos e ruídos da sociedade contemporânea.

Maria Silva Abrão, Paulo R. Grandisolli*

*Filósofa/o Clínica/o do Recando da Filosofia Clínica/SP

 

 

 

 

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