RESUMO
O presente artigo analisa a obra “A Linguagem dos Pássaros”, de Farid ud-Din Attar, como narrativa simbólica da jornada de autoconhecimento e da busca de sentido na existência humana. Partindo da tradição Sufi e em diálogo com a Filosofia Clínica, especialmente com os conceitos de historicidade, estrutura de pensamento e buscas, investiga-se a travessia dos pássaros em direção ao Simurgh, como metáfora dos caminhos existenciais do sujeito. A problemática do presente artigo consiste em compreender de que modo essa narrativa pode ser lida como percurso filosófico-existencial marcado por crise, desapego, reorganização interior e reconhecimento de si. A metodologia adotada é qualitativa, com base em pesquisa bibliográfica e análise hermenêutica da obra de Attar e de estudos correlatos sobre Sufismo e Filosofia Clínica. Observo que a obra descreve um processo de desconstrução do ego e de abertura a uma unidade do ser que não suprime a singularidade do sujeito, mas a aprofunda. Conclui-se que o sentido não se apresenta como dado exterior nem como fórmula universal; ele se revela na medida em que o sujeito atravessa sua própria historicidade, elabora seus apegos e se torna capaz de reconhecer, no fim do caminho, aquilo que sempre o habitou.
Palavras-chave: Sufismo; Filosofia Clínica; Autoconhecimento; Sentido; Nômade Existencial.
1 – INTRODUÇÃO
A questão do sentido da vida permanece como uma das interrogações mais persistentes da experiência humana. Em diferentes tradições filosóficas e religiosas, a existência é compreendida não apenas como dado biológico ou social, mas como tarefa, percurso e elaboração. Nessa perspectiva, a obra “A linguagem dos pássaros”, de Farid ud-Din Attar, destaca-se como uma das mais expressivas formulações simbólicas da busca de sentido dentro do sujeito nômade existencial, ao apresentar uma jornada em que os pássaros, cansados de sua dispersão, decidem partir em direção ao Simurgh, figura do absoluto e do verdadeiro rei.
Logo de início, é preciso destacar, que a relevância da obra não se limita ao campo literário. Estudos sobre Attar a reconhecem como síntese admirável do pensamento Sufi (Sufismo), estruturada por meio de alegorias, parábolas e episódios que articulam experiência espiritual, crítica ao ego e exigência de transformação interior. Dilaci Faria, em seu artigo escrito na Pós-graduação em Ciências da Religião na UFJF, observa que a linguagem dos pássaros apresenta, em forma alegórica, a essência do pensamento Sufi e as dificuldades que o ser humano enfrenta em sua aproximação com Deus (FARIA, 2010). Faustino Teixeira, por sua vez, descreve a obra como uma “épica da alma” em busca do Mistério de Deus (TEIXEIRA, 2010, p. 14).
O problema que orienta este nosso artigo consiste em investigar de que modo essa narrativa pode ser interpretada como metáforas filosófico-existencial da condição humana. Mais especificamente, busca-se compreender como a travessia dos pássaros pode dialogar com a Filosofia Clínica, em especial com os conceitos de historicidade e buscas desenvolvidos por Lúcio Packter. A hipótese sustentada é que os vales percorridos pelos pássaros podem ser lidos como figuras de reorganização interior do sujeito, isto é, como momentos de crise, desmontagem de referências e reconstrução da experiência de si.
Dentro deste contexto, podemos compreender como o nomadismo existencial sendo um estilo de vida ou estrutura de pensamento filosófico caracterizado pela mudança contínua, rejeitando residência fixa e convenções sociais, buscando a construção do “eu” através de experiências, afetos e encontros, em vez de essências pré-definidas. Pode ser uma fuga de si mesmo ou uma forma de liberdade, por assim dizer.
Trata-se, portanto, de um estudo qualitativo, de natureza bibliográfica e hermenêutica, cujo objetivo é analisar a narrativa de Attar como percurso de autoconhecimento e construção de sentido, articulando-a a uma leitura clínico-filosófica. A escolha dessa aproximação se justifica porque a Filosofia Clínica, ao enfatizar a singularidade da pessoa, seus modos de existir e suas buscas, oferece instrumentos conceituais fecundos para compreender a jornada dos pássaros não como tipologia moral, mas como expressão dramática dos caminhos existenciais.
2 – SUFISMO E LINGUAGEM SIMBÓLICA
O Sufismo constitui uma das mais importantes correntes místicas do Islã, caracterizando-se pela ênfase na interioridade, na experiência espiritual e no conhecimento do coração (considerado o órgão de conhecimento espiritual, o centro sutil do ser onde ocorre a união com o Divino (Allah)). Em contraste com as perspectivas do absolutismo do discurso racional, a tradição Sufi sustenta que a “verdade última” não se deixa apreender plenamente por meio da mera inteligência discursiva. Assim bem orienta o autor Dilaci Faria em seu artigo que sintetiza esse aspecto ao assinalar que, para o Sufismo, é “impossível chegar a Deus somente pela inteligência, pela razão, pela vontade”, uma vez que a intuição ocupa lugar decisivo nesse caminho (FARIA, 2010, p. 104).
Essa perspectiva não implica recusa da razão, mas reconhecimento de seus limites. A razão pode orientar, distinguir e ordenar; contudo, não esgota o real. Por isso, a tradição Sufi atribui centralidade ao coração como órgão sutil da percepção espiritual. A experiência religiosa, nesse horizonte, não se reduz a adesão formal a dogmas, mas se configura como travessia interior, disciplina de si, despojamento e abertura ao misterioso.
Nesse contexto, a linguagem simbólica não aparece como ornamento estético, mas como forma própria de expressão de uma verdade que ultrapassa o conceito. A alegoria permite dizer o que o discurso direto muitas vezes não consegue alcançar em sua magnitude. Em Attar, os pássaros não são apenas aves; eles representam modos humanos de apego, medo, vaidade, desejo e busca. A Poupa (ave mais nobre, conhecida também como mensageira do Rei Salomão) não é apenas personagem narrativa; ela figura o mestre, o guia, a voz que convoca ao caminho. O Simurgh, enfim, não é somente um rei distante, mas imagem do absoluto e, ao mesmo tempo, do reconhecimento último de si.
Por essa razão, a obra se move no registro de uma pedagogia espiritual. Ela ensina por narrativas, exemplos e deslocamentos de sentido. O leitor não é conduzido a uma definição abstrata da verdade, mas a um processo de interpretação de si. A linguagem dos pássaros, assim, exemplifica uma forma de conhecimento que envolve a totalidade da pessoa e articula experiência, símbolo e transformação.
3 – A ASSEMBLEIA DOS PÁSSAROS E A CONDIÇÃO HUMANA
A narrativa de Attar começa com uma assembleia. Todos os pássaros do mundo se reúnem e reconhecem um estado de desordem: vivem dispersos, sem rei, sem centro e sem direção. Tal cena inicial funciona como imagem potente da condição humana quando ela desperta para a própria desorientação. Não se trata ainda da resposta, mas do aparecimento da pergunta. O sujeito percebe que, embora viva, atue e se mova, algo nele permanece sem eixo, sem sentido, uma espécie de vazio existencial.
Esse momento de consciência da falta de sentido é decisivo. Sem ele, não há jornada. O caminho só começa quando a permanência na superficialidade se torna insuficiente. Nessa medida, a obra de Attar descreve aquilo que poderia ser chamado de crise inaugural do sentido: a existência contínua, mas não basta; a ordem externa persiste, mas o interior já não se satisfaz com ela. A assembleia dos pássaros é, portanto, a imagem de uma humanidade que começa a suspeitar de sua própria dispersão.
É nesse momento que surge a figura da Poupa. Ela representa o guia espiritual, mas também o mediador entre inquietação e movimento. Sua função não é fornecer respostas prontas nem carregar os pássaros. Ela indica a existência do Simurgh e revela a necessidade da travessia. O verdadeiro guia, aqui, não substitui a experiência do outro; ele a convoca. Há um chamado, mas a resposta exige decisão.
É preciso esclarecer que o Simurgh é uma criatura mítica persa que representa Deus ou a verdade suprema. E dentro da obra de Attar os pássaros buscam o Simurgh como seu rei, atravessando sete vales místicos (busca, amor, conhecimento, desapego, unidade, espanto e aniquilação).
A genialidade de Attar se mostra também no fato de que os pássaros não aceitam imediatamente o convite. Cada um apresenta desculpas, justificativas, apegos e temores. O rouxinol apega-se a rosa; o falcão, ao poder; a perdiz, as pedras preciosas; o pato, ao conforto da água; o pardal, a própria fragilidade. Essas recusas possuem grande alcance filosófico, pois evidenciam que o principal obstáculo ao caminho não é a ausência de sentido, mas a aderência a formas de vida que impedem a travessia. O homem nem sempre está sem direção por falta de um horizonte; muitas vezes, está preso a pequenos absolutos que o impedem de partir, que em Filosofia Clínica podemos chamar de Armadilhas Conceituais que surgem quando os conceitos que estruturam o pensamento de uma pessoa se organizam de tal maneira que passam a restringir suas possibilidades existenciais, criando verdadeiros “encarceramentos” do sujeito em sua própria forma de compreender o mundo.
4 – A JORNADA DOS PÁSSAROS A LUZ DA FILOSOFIA CLÍNICA
A aproximação com a Filosofia Clínica permite aprofundar a compreensão dessa narrativa. Lúcio Packter sustenta que cada pessoa sente, vive e interpreta o mundo de modo singular à sua maneira. Em Filosofia clínica: mais especificamente no livro “Propedêutica”, ao retomar Protágoras, afirma que aquilo que a pessoa sente, vive, afirma ou imagina “isso e assim para ela”, independentemente de ser partilhado, criticado ou aceito pelos demais (PACKTER, 2001, p. 16-17). Essa fórmula é decisiva para evitar uma leitura moralizante da obra de Attar.
Os pássaros não devem ser reduzidos a exemplos de erro ou acerto. Cada um deles manifesta um modo de organização da experiência em sua singularidade. As desculpas que apresentam revelam estruturas de pensamento, apegos constitutivos, pré-juízos, prioridades existenciais e maneiras particulares de valorar o mundo. Lidos a partir da Filosofia Clínica, eles deixam de ser simplesmente figuras condenáveis e tornam-se expressões de trajetórias singulares diante da possibilidade de transformação.
Esse ponto é importante porque a clínica filosófica não trabalha com modelos universais de vida boa impostos de antemão. Ao contrário, ela se volta para a historicidade da pessoa. O filósofo clínico com alteridade, precisa compreender como o sujeito constitui sua experiência, como elabora seus pré-juízos, como narra sua vida e quais buscas estruturam seu percurso. Packter afirma que o filósofo necessita que a pessoa conte a sua história por ela mesma, pois é a partir dessa autobiografia que o trabalho se torna possível (PACKTER, 2001, p. 34-39).
Na obra “Em Buscas: caminhos existenciais”, Packter define buscas como os caminhos existenciais de uma pessoa, isto é, seus sonhos, propensões, disposições complexas e direções de vida; em suma, “onde vai a pessoa” (PACKTER, 2004, p. 17). Essa definição oferece uma chave particularmente fecunda para a leitura de Attar. A jornada dos pássaros pode ser interpretada como dramatização simbólica das buscas humanas. O ponto central não é apenas saber se os pássaros chegam ao destino, mas compreender que tipo de relação cada um estabelece com o próprio caminho.
Além disso, a Filosofia Clínica mostra que as buscas nem sempre aparecem de modo linear, transparente ou constante. Elas podem emergir de forma indireta, sofrer interrupções, reaparecer modificadas ou mesmo cessar temporariamente (PACKTER, 2004, p. 21-30). Tal observação ajuda a compreender por que, na obra de Attar, tantos pássaros hesitam, retrocedem ou sucumbem. O caminho existencial não é uma linha reta; ele é atravessado por ambivalências, medos, reconstruções e desencontros. Também, é de suma importância nos atermos que cada pessoa, e sua singularidade, tem a forma de interpretar suas emoções, por exemplo, quando se age por impulso, sem ter uma racionalidade envolvida, o sujeito impregnado por suas emoções simplesmente age, ato em potência que pode ser positivo ou negativo, não sabemos em um primeiro momento sem passar pelo crivo da racionalidade.
Por essa via, a interseção entre Attar e Packter produz uma leitura clínico-existencial da peregrinação humana em busca de sentido e eixo no caminho da existência. Os vales podem ser vistos como figuras simbólicas de um trabalho interior no qual a pessoa é confrontada com sua historicidade, com seus vínculos estruturantes e com a necessidade de reorganizar o próprio modo de existir.
5 – ARMADILHAS CONCEITUAIS E A TRAVESSIA IMPOSSÍVEL
A leitura da obra A Linguagem dos Pássaros, de Farid ud-Din Attar, ganha profundidade significativa quando articulada ao conceito de armadilhas conceituais desenvolvido por Lúcio Packter na Filosofia Clínica. Ao deslocarmos o olhar da narrativa para a estrutura do pensamento dos pássaros, deixa de fazer sentido interpretá-los apenas como figuras simbólicas de fragilidade moral ou hesitação espiritual. O que se revela, com maior rigor, é que muitos deles estão aprisionados em modos de organização interna que inviabilizam qualquer possibilidade de travessia.
Packter define as armadilhas conceituais como configurações em que os conceitos que habitam a malha intelectiva de uma pessoa se articulam de tal maneira que passam a restringir suas próprias possibilidades existenciais, gerando um fechamento estrutural que impede o movimento. Nesse cenário, o sujeito não apenas encontra dificuldades, mas ele se vê impossibilitado de agir de outra forma. A questão deixa de ser volitiva e passa a ser estrutural neste ponto.
Essa compreensão permite reinterpretar profundamente os pássaros que, na narrativa de Attar, recusam a jornada. Eles não dizem apenas “não quero ir”, mas, de forma mais radical, expressam algo próximo de “não posso ir”. E é exatamente nesse ponto que a Filosofia Clínica oferece uma chave interpretativa decisiva: quando o sujeito afirma a inexistência de alternativas, quando se percebe sem saída, quando suas possibilidades se apresentam como já encerradas, há indícios claros de que uma armadilha conceitual se estabeleceu.
As justificativas dos pássaros, por exemplo, o apego ao amor, o medo da perda, o conforto da estabilidade, a vaidade do saber, tais colocações não são meras desculpas. Elas constituem, antes, estruturas que sustentam a impossibilidade da travessia. Não se trata de fraqueza, mas de organização existencial. Nesse sentido, o que está em jogo não é a escolha de permanecer, mas a incapacidade de partir.
A distinção proposta por Packter entre limites e armadilhas conceituais é, aqui, fundamental. Limites dizem respeito às condições da existência, ou seja, obstáculos que podem ser enfrentados, contornados ou ressignificados. Já as armadilhas conceituais configuram-se como estruturas que bloqueiam o movimento independentemente das circunstâncias externas. Assim, enquanto os vales descritos por Attar representam desafios próprios da travessia, aquilo que impede muitos pássaros de sequer iniciá-la não são os vales, mas as estruturas que os aprisionam antes mesmo do caminho começar.
Outro aspecto relevante na análise de Packter diz respeito à repetição como mecanismo de manutenção dessas armadilhas. Certas formas de pensar e sentir se reiteram ao longo da vida, consolidando padrões que se tornam cada vez mais difíceis de romper. Na narrativa de Attar, essa repetição se manifesta na insistência dos pássaros em sustentar suas razões para não partir. Eles não apenas recusam a jornada, mas eles reafirmam continuamente os fundamentos de sua recusa. Nesse movimento, não apenas permanecem presos, mas passam a sustentar ativamente o próprio aprisionamento.
Entretanto, a superação de uma armadilha conceitual não se apresenta como um processo simples ou linear. Packter adverte que determinadas estruturas, ainda que limitantes, podem desempenhar papel de sustentação na vida do sujeito. Rompê-las abruptamente pode implicar não libertação, mas desorganização na estrutura de pensamento do sujeito. Essa advertência é especialmente importante quando colocada em paralelo com a radicalidade da proposta de Attar. A travessia dos vales não é um processo de ajuste ou aperfeiçoamento progressivo, mas de transformação profunda, que implica a dissolução de referenciais anteriores.
É nesse ponto que a narrativa atinge sua dimensão mais exigente: apenas aqueles que conseguem atravessar não apenas o caminho, mas a si mesmos, chegam ao encontro com o Simurgh. E esse encontro não revela um outro, mas um espelho. À luz da Filosofia Clínica, pode-se compreender esse momento como aquele em que as estruturas que sustentavam as armadilhas deixam de operar, não porque foram corrigidas, mas porque o sujeito já não se organiza da mesma maneira.
Assim, a jornada descrita por Attar pode ser compreendida como uma travessia das próprias armadilhas conceituais que aprisionam o sujeito em sua historicidade. Não se trata de encontrar respostas externas, mas de atravessar aquilo que impede a pergunta de continuar existindo. Nesse sentido, a obra aponta para uma das questões mais delicadas da experiência humana e da clínica filosófica: o momento em que o sujeito deseja mudar, percebe a necessidade da travessia, mas se vê incapaz de dar o primeiro passo.
Talvez seja justamente por isso que apenas alguns pássaros chegam ao final da jornada. Não porque sejam mais fortes, mais sábios ou mais preparados, mas porque, de algum modo, conseguiram atravessar aquilo que os mantinha presos. E essa travessia, antes de qualquer deslocamento no mundo, é sempre uma travessia de si e em si mesmo.
6 – OS SETE VALES COMO FENOMENOLOGIA DA TRANSFORMAÇÃO
A travessia dos sete vales constitui o núcleo da obra e pode ser compreendida como uma fenomenologia da transformação interior. Não se trata de uma geografia externa, mas de uma topografia da alma. Cada vale representa um modo de crise e de reorganização do sujeito.
O primeiro é o vale da busca. Nele, o sujeito desperta para a necessidade de partir. Há aqui um elemento fundamental: a jornada começa não pela certeza, mas pela insuficiência. O indivíduo percebe que a vida tal como está organizada não responde mais ao que nele se move. Em linguagem clínica, esse momento corresponde ao aparecimento mais nítido de uma busca, isto é, de um vetor existencial que passa a reorganizar a experiência do sujeito.
O segundo é o vale do amor. Mas o amor, em Attar, não é afeto sentimental acomodado; é fogo que consome, rompe o cálculo e desestabiliza o ego. Teixeira observa que a obra de Attar fala de um “puro Amor” que exige do sujeito um radical despojamento do ego e a disposição de jogar-se no fogo da Presença (TEIXEIRA, 2010, p. 15). O amor aqui não tranquiliza; ele desloca em potência, no conceito de Aristóteles. Ele a obriga a perder o controle sobre si e, justamente por isso, inaugura uma forma mais profunda de verdade.
O terceiro vale é o do conhecimento. Também aqui é preciso afastar um equívoco moderno: não se trata do acúmulo de informações, mas de uma forma de compreensão existencial. O sujeito percebe que seu antigo saber era insuficiente ou ilusório. Há uma desarticulação das certezas. Em vez de domínio, o conhecimento se torna experiência de limite.
O quarto vale é o do desapego ou do alheamento. Esse momento marca a perda progressiva de identidades, referências e seguranças. O sujeito é chamado a deixar o que o prendia, inclusive aquilo que julgava ser ele mesmo. Aqui se mostra com nitidez o caráter da jornada. O caminho exige esvaziamento, seja das coisas materiais, dos pensamentos e da construção do Ego.
O quinto vale é o da unidade. Após a dispersão e a perda, aparece uma intuição de integração. O sujeito começa a perceber que as separações que organizam seu mundo não possuem a consistência que pareciam ter. Não se trata ainda de uma posse tranquila da unidade, mas de um vislumbre de que a realidade é mais profunda do que a fragmentação cotidiana.
O sexto vale é o do espanto e da perplexidade. A experiência do mistério se impõe, e a razão deixa de se comportar como senhora absoluta. O sujeito se espanta porque já não consegue resumir a realidade a suas antigas categorias. Esse espanto, longe de ser um fracasso, é sinal de abertura.
Por fim, o sétimo vale é o da privação, morte ou aniquilação. Aqui o ego sofre seu golpe definitivo. Não há mais lugar para a centralidade do eu autocentrado. O sujeito deve consentir em perder o que o impedia de ver. E nesse ponto extremo que a revelação final se torna possível. Como em muitas tradições espirituais, o acesso à verdade não se dá pela inflação do eu, mas por sua descontração.
7 – O SIMURGH E O RECONHECIMENTO DE SI
Ao final da travessia, apenas trinta pássaros chegam ao destino. Purificados pelo caminho, encontram o Simurgh e descobrem que ele não é um outro exterior, mas o reflexo deles mesmos. Essa cena final condensa o ensinamento central da obra: aquilo que se buscava não estava fora, mas não podia ser reconhecido sem a travessia.
A fórmula é filosoficamente decisiva. O sentido não é um objeto que o sujeito recolhe no fim de uma expedição; ele é uma verdade que se torna visível quando o próprio sujeito é transformado. O caminho não conduz a simples aquisição, mas ao desvelamento do ser em si mesmo. Os pássaros não “fabricam” o Simurgh; tampouco o encontram como coisa entre si próprias. Eles se tornam capazes de reconhecê-lo porque já não olham desde o mesmo lugar, ou seja, a forma de olhar adquire consciência capaz de vislumbrar as verdadeiras possibilidades.
Faria assinala que, no resultado final da jornada, os pássaros viajantes encontram Deus e encontram-se em Deus (FARIA, 2010, p. 106). Independentemente da linguagem teológica adotada, o ponto filosófico permanece: o encontro último e, encontro de si. Mas esse ‘si’ não coincide com o ego inicial; trata-se de um ser depurado, atravessado, descentrado.
A descoberta dos pássaros nos faz recordar da frase “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses” que é um aforismo da Grécia Antiga, frequentemente atribuído a Sócrates e inscrito no Templo de Apolo em Delfos.
A Filosofia Clínica ajuda a esclarecer esse movimento. O reconhecimento de si não significa adequação a um modelo universal de identidade, mas acesso mais fino à singularidade existencial. O sujeito não se encontra porque confirma narcisicamente uma imagem prévia; encontra-se porque pode ver, de maneira mais verdadeira, como sua historicidade, suas buscas e seus vínculos o constituem. Em outros termos, o fim do caminho não apaga a singularidade; torna-a mais radical.
8 – PEREGRINAÇÃO, HISTORICIDADE E PRÁTICA FILOSÓFICA
A leitura da obra de Attar permite compreender a peregrinação para muito além do deslocamento físico. Ela pode ser pensada como prática filosófica, isto é, como exercício de transformação de si. O sujeito que peregrina não apenas muda de lugar; ele altera seu modo de relação com o tempo, com o corpo, com a memória e com o sentido.
Nesse ponto, a aproximação com a Filosofia Clínica torna-se novamente fecunda. Se a clínica filosófica se ocupa da historicidade da pessoa e de suas buscas, então ela também pode ser entendida como espaço de peregrinação interior humana. O consultório, nesse sentido, não é lugar de aplicação de moldes; é espaço de escuta, elaboração e travessia.
O próprio Packter insiste em que o filósofo clínico não deve impor tipologias, dogmas ou explicações prontas ao sujeito. Ele precisa, com alteridade, acatar a manifestação da pessoa a partir do modo como as coisas são para ela e acompanhar sua narrativa com rigor e respeito (PACKTER, 2001, p. 38-43). Essa atitude se aproxima da função da Poupa em Attar: não substituir o caminho do outro, mas sustentar a possibilidade da jornada.
A peregrinação, nesse horizonte, não é apenas tema da obra; é também método de leitura e figura da clínica. Ler Attar e, de certo modo, ser convocado a uma experiencia de deslocamento interior. Fazer Filosofia Clínica, por sua vez, e aceitar que cada sujeito percorre um caminho próprio, por vezes tortuoso, em que o sentido não é deduzido de fora, mas elaborado no curso da existência.
9 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida permite afirmar que a linguagem dos pássaros constitui uma das mais ricas metáforas da jornada humana em busca de sentido. Por meio da assembleia inicial, das desculpas dos pássaros, da condução da Poupa e da travessia dos sete vales, Attar descreve um percurso no qual a verdade não é dada de imediato, mas se revela através de crise, desapego e transformação.
O diálogo com a Filosofia Clínica mostrou-se particularmente fecundo porque permite ler essa jornada a partir da singularidade do sujeito. Os pássaros não representam apenas vícios morais ou funções literárias; eles dramatizam modos de existir, estruturas de pensamento, vínculos e buscas. A peregrinação dos pássaros ou humanas, assim, deixa de ser entendida como roteiro uniforme e passa a ser reconhecida como processo existencial singular.
Ao final, o encontro com o Simurgh revela que o sentido não estava fora, embora tampouco fosse imediatamente acessível no interior fechado do ego. Era necessário atravessar os vales. Em termos filosóficos, isso significa que o sentido da vida não se reduz a respostas prontas, ou fórmulas morais ou a promessas exteriores. Ele se torna visível quando o sujeito elabora sua historicidade, se desfaz de seus apegos e aprende a reconhecer, no fim do caminho, aquilo que sempre o habitou.
Dessa forma, a obra de Attar e a Filosofia Clínica convergem num ponto decisivo: a existência humana exige caminho. E esse caminho, embora partilhável na linguagem e na companhia, permanece irredutivelmente singular. Ninguém atravessa os vales pelo outro, uma vez que ser é único em sua estrutura e em pensamento, que exige ser realizada uma jornada interna para o autoconhecimento e aprofundamento das questões existenciais.
REFERÊNCIAS
ATTAR, Farid ud-Din. A linguagem dos pássaros. 2. ed. São Paulo: Attar Editorial, 1991.
FARIA, Dilaci S. A linguagem dos pássaros (Mantiq-at-Tayr) e a mística do Islã. Sacrilegens, Juiz de Fora, v. 7, n. 1, p. 102-114, 2010.
PACKTER, Lúcio. Armadilhas Conceituais. Florianópolis: Garapuvu, 2003
_________. Buscas: caminhos existenciais. Florianópolis: Garapuvu, 2004.
_________. Filosofia clínica: propedêutica. 3. ed. Florianópolis: Garapuvu, 2001.
TEIXEIRA, Faustino. A linguagem dos pássaros: uma epopeia espiritual. Revista CREatividade, Rio de Janeiro, n. 14, p. 14-20, 2010.