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Do “inferno” de Sartre à fábrica de inimigos de Umberto Eco: como a vitimização transforma o outro em vilão

1 – introdução

Vivemos tempos de certezas entrincheiradas. O mundo parece irrevogavelmente dividido entre “nós” e “eles”. Nas redes sociais, na política e até nos círculos sociais, a construção de um antagonista claro tornou-se um procedimento operacional padrão na sociedade e na mente humana. O filósofo e semiólogo italiano Umberto Eco, em seu ensaio “Construir o Inimigo”, diagnosticou isso como uma necessidade social, isto é, precisamos de um inimigo para definir quem somos.

Mas essa necessidade política, essa “construção”, não nasce naturalmente. Isto porque ela é alimentada por um desconforto muito mais profundo e pessoal. Décadas antes de Eco, o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre nos deu a chave para entender a origem desse desconforto em sua peça teatral “Entre Quatro Paredes”, resumida na famosa e mal compreendida frase: “O inferno são os outros”.

Ao conectar Sartre e Eco, descobrimos uma verdade perturbadora: a construção social do inimigo é, muitas vezes, uma fuga psicológica da responsabilidade individual e coletiva.

2 – o inferno não é o mal, é o “olhar”

Primeiro, precisamos corrigir a interpretação comum da frase de Sartre. Quando ele diz “O inferno são os outros”, ele não quer dizer que as outras pessoas são inerentemente más ou cruéis. O inferno descrito por ele é a experiência de ser “visto e ser notado pelo olhar do outro”.

Para Sartre, existimos de duas formas: como um “ser-para-si” (um sujeito, uma consciência livre e indefinida) e um “ser-para-outro” (um objeto, definido pelo mundo exterior). Quando estamos sozinhos, somos pura possibilidade. Quando outra pessoa entra na sala, o seu “Olhar” recai sobre nós e nos transforma.

O “Olhar” do outro nos congela e nos traz pensamentos, sejam eles positivos ou negativos. Automaticamente, ele nos dá um rótulo, uma definição, uma essência da qual não podemos escapar. Sob o Olhar do outro, eu me torno “aquele cara tímido”, “aquela pessoa arrogante”, “o inteligente” ou “o fracassado”. Eu perco o controle da minha própria definição em si mesma.

Esse é o inferno sartriano, é a tensão inescapável de sermos permanentemente julgados, objetificados e definidos pela consciência alheia. É uma fonte constante de angústia, vergonha e conflito existencial.

3 – a “má fé” e o nasciemento da vítima

Este inferno é psicologicamente insuportável por qualquer pessoa. E aqui, Sartre nos oferece outro conceito-chave: a “má-fé”, sendo essa um ato de mentir para si mesmo para escapar da ansiedade da nossa liberdade e da nossa total responsabilidade pela vida. A forma mais comum de má-fé é a vitimização.

Incapaz de suportar o peso da própria liberdade e o desconforto do “Olhar” do outro, eu minto para mim mesmo. Eu digo internamente: “Eu não sou responsável pelo meu sofrimento; o Outro é”. Eu abdico da minha liberdade e me declaro uma “vítima” das circunstâncias ou, mais especificamente, uma vítima do Outro.

Ao me posicionar como vítima, eu instantaneamente ganho um álibi moral para meus fracassos e uma justificativa para minha passividade. O problema é que uma vítima, por definição, precisa de um agressor.

4 –  a solução de Eco: transformando o outro em inimigo

É neste ponto que a angústia existencial de Sartre se encontra com a engenharia social de Umberto Eco. O “Outro” de Sartre é complexo; ele é apenas um espelho que nos julga e nos define. Mas a “Vítima” (em sua má-fé) não pode conviver com essa complexidade. Ela precisa transformar o “Outro” (fonte de desconforto) no “Inimigo” (fonte de todo o mal). É aqui que iniciamos, ativamente, a “construção do inimigo” descrita por Eco.

Pegamos o “Olhar” julgador de Sartre e o reembalamos como um “ataque” deliberado. As ações do Outro, que antes eram apenas manifestações da liberdade dele, tornam-se provas de julgamento perverso. Não estamos mais em um conflito existencial entre duas liberdades; estamos em uma luta moral entre o Bem (nós, as vítimas) e o Mal (eles, os inimigos).

Umberto Eco argumenta que fazemos isso em nível social para fortalecer nossa identidade de grupo. O “nós” (a nação, o partido, a religião) só parece coeso e virtuoso quando comparado a um “eles” bárbaro, imoral e perigoso.

O que Sartre revela é a motivação psicológica por trás disso. Nós nos engajamos com tanto afinco nessa construção social porque ela resolve um problema pessoal e individual. Ao demonizar o “Outro” como um Inimigo, validamos nossa posição de vítima e nos livramos da terrível responsabilidade de sermos livres e agir com responsabilidade plena.

Neste contexto, a vitimização emerge como a mais potente estratégia de má-fé. Ao autodeclarar-se “vítima”, o indivíduo executa uma hábil transferência de responsabilidade. Ele abdica do seu papel de sujeito livre e adota a confortável passividade de um objeto que sofre uma ação. A sua condição (seja ela de sofrimento, fracasso ou angústia) deixa de ser o resultado da sua gestão existencial da liberdade e passa a ser o resultado direto da ação de um agressor externo. “Eu não sou livre para mudar minha situação; eu sou oprimido.”

Essa fabricação do Inimigo, impulsionada pela vitimização, oferece um duplo benefício psicológico e social.

Primeiro, cumpre a função sartriana da má-fé, ou seja, a fuga da liberdade. O indivíduo está absolvido da responsabilidade pela sua própria angústia. A sua infelicidade é agora justificada pela malevolência do Inimigo criado. A ansiedade paralisante da liberdade é substituída pela indignação moral (energizante e socialmente aceitável) contra o opressor.

Segundo, cumpre a função social, conforme descrito por Umberto Eco, cumpre a criação da identidade coletiva. O indivíduo descobre rapidamente outros que, pelo mesmo mecanismo de má-fé, se identificam como vítimas do mesmo Inimigo. Forma-se um “nós” coeso — o “nós” dos justos, dos puros, dos perseguidos. Como Umberto Eco argumenta em seu texto, essa identidade de grupo raramente se define por valores positivos próprios, mas sim “pelo negativo”, em oposição direta ao “eles”. A nossa virtude é definida apenas pela vilania que projetamos no Inimigo construído.

Portanto, a vitimização não é uma condição passiva; é uma estratégia existencial ativa. É o motor psicológico que converte a ansiedade interna e individual da liberdade (Sartre) na energia externa e coletiva necessária para a polarização e o ódio (Eco). Ao fugir da responsabilidade de ser livre, o indivíduo abraça a definição simplista de ser “o oprimido” e, para que essa farsa existencial se sustente, é forçado a construir o “Outro” como o monstro que justifica o seu sofrimento.

Deste modo o “inferno” de Sartre é sutil e paralisante. O “inimigo” de Umberto Eco é claro e mobilizador. É muito mais fácil lutar uma guerra contra um monstro do que se sentar em uma sala e suportar o julgamento silencioso de outra pessoa.

 

5 – responsabilidade existencial e do exame dos pré-juízos

Também de suma importância refletir e trazer a Luz o tópico 5 abordado em Filosofia Clínica, chamado de Pré-Juízos, que consiste em verdades subjetivas que habitam a pessoa e que a acompanham ao experienciar da vida em si e em potência. Isto é, são verdades que a pessoa traz previamente e que entram ou não em contato com o que o vive.

A hermenêutica filosófica desenvolvida por Hans-Georg Gadamer, notadamente em sua obra magna Verdade e Método, promove uma ruptura epistemológica ao reabilitar o conceito de pré-juízo, sendo esse elevado à categoria de condição ontológica da compreensão.

Gadamer retoma o sentido original do termo, definindo-o como um “juízo formado antes da prova definitiva”. Este ponto de partida implica que o sujeito cognoscente jamais se encontra em um estado de “tabula rasa” para abordar uma situação do cotidiano. Pelo contrário, a compreensão é sempre mediada por uma pré-compreensão que advém da nossa inserção inevitável na tradição e na história.

A historicidade do ser humano, o Dasein heideggeriano, projeta-se na interpretação através da estrutura dos pré-juízos. Tais juízos prévios constituem o nosso horizonte compreensivo do presente, um espaço de visão que está em constante formação e que não se fecha em si mesmo. O movimento hermenêutico não busca anular esses pré-juízos, mas sim submetê-los a um teste de legitimidade. Às vezes, em alguns casos, a tarefa do intérprete clínico consiste em distinguir os pré-juízos cegos e arbitrários (que devem ser suspensos) dos pré-juízos legítimos e produtivos que antecipam o sentido e possibilitam a abertura do sujeito à experiência, caso seja a necessidade daquele partilhante.

6 – conclusão: a coragem de viver no “inferno”

A polarização que vemos hoje é, talvez, uma epidemia de má-fé coletiva. Transformamos o “Outro” que vota diferente, que pensa diferente ou que vive diferente, em um “Inimigo” existencial. Fazemos isso não porque eles sejam intrinsecamente maus, mas porque é mais fácil odiá-los do que confrontar o “Olhar” que eles lançam sobre nossas próprias certezas.

Ao nos declararmos vítimas desse Inimigo construído, renunciamos à nossa responsabilidade de criar sentido, de dialogar e de coexistir.

A verdadeira coragem, no sentido sartriano, não é derrotar o inimigo. É aceitar a condição trágica da coexistência. É suportar o “inferno” do Olhar do outro sem sucumbir à tentação de transformá-lo em um vilão, e, ainda assim, escolher ser livre e responsável por quem somos.

De um modo geral, sem ser regra, longe de ser uma “tábua rasa”, algumas pessoas interpreta a realidade através desse horizonte histórico, tornando a tarefa hermenêutica não a eliminação desses juízos prévios, mas a distinção crítica entre pré-juízos arbitrários e aqueles legítimos que, de fato, possibilitam a abertura ao sentido e à experiência.

 

Referências bibliográficas essenciais:

  1. ECO, Umberto. Construir o Inimigo e Outros Escritos Ocasionais. São Paulo: Record, 2021.
  2. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método I: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 2015.
  3. SARTRE, Jean-Paul. Entre Quatro Paredes. São Paulo: L&PM Pocket, 2017.

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Rio de Janeiro: Vozes, 201

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